domingo, 30 de setembro de 2012

"Eu tenho milhares de erros. Mas quer saber? Um (uns?) dos meus melhores acertos foi sempre acreditar. Sim, acreditar. Na vida, nos meus sonhos, em mim, em dias bonitos, em finais felizes, em anjos, em tudo que faz o meu coração acalmar. Quem diz que tudo que eu acredito não existe, pra mim é burro. Um completo burro, ignorante e que não sabe nada da vida."

[Clarissa Corrêa]

sábado, 29 de setembro de 2012


"E eu compreendi que não podia suportar a ideia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto."

[Antoine de Saint-Exupéry - O Pequeno Príncipe]

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"...e na porta mesmo ele estacou com aquele ar ofegante e de súbito paralisado como se tivesse corrido léguas para não chegar tarde demais. Ela ia sorrir. Para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de ter chegado a tempo de encontrá-la chatinha, boa e diligente, e mulher sua. Ela ia sorrir para que de novo ele soubesse que nunca mais haveria o perigo dele chegar tarde demais. Ia sorrir para ensiná-lo docemente a confiar nela." 

[Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”]

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

"Liberdade é como saborear um passeio de bicicleta sem precisar apostar corrida com ninguém. Não temos que ter essa ou aquela velocidade. Apenas pedalar. No nosso ritmo."

[Ana Jácomo]

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


"Eu sei que teu abraço é meu amparo.Já posso saltar no desconhecido com a inocência de uma criança que nunca foi machucada.Porque quando você ri, a confiança me preenche.Então a vida é sábia.E nós a reinauguramos diariamente." 


[Marla de Queiroz]

terça-feira, 25 de setembro de 2012

“Adeus, meu amor, logo nos desconheceremos. Mudaremos os cabelos, amansaremos as feições, apagarei seus gostos e suas músicas. Vamos envelhecer pelas mãos. Não andarei segurando os bolsos de trás de suas calças. Tropeçarei sozinho em meus suspiros, procurando me equilibrar perto das paredes.

Esquecerei suas taras, suas vontades, os segredos de família. Riscarei o nosso trajeto do mapa. Farei amizade com seus inimigos. Sua bolsa não se derramará sobre a cadeira. Não poderei me gabar da rapidez em abrir seu sutiã. Vou tirar a barba, falar mais baixo, fazer sinal da cruz ao passar por igrejas e cemitérios. Passarei em branco pelos aniversários de meus pais, já que sempre me avisava. O mar cobrirá o desenho das quadras no inverno. As pombas sentirão mais fome nas praças. Perderei a seqüência de sua manhã – você colocava os brincos por último.

Meus dias serão mais curtos sem seus ouvidos. Não acharei minha esperança nas gavetas das meias. Seus dentes estarão mais colados, mais trincados, menos soltos pela língua. Ficarei com raiva de seu conformismo. Perderei o tempo de sua risada. A dor será uma amizade fiel e estranha. Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar. Vou cumprimentá-la com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma. Não olharei para trás, para não prometer a volta. Não olharei para os lados, para não ameaçá-la com a dúvida.

Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos. Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa. Adeus, meu amor. Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro. Não puxaremos assunto com os garçons. Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades. Não tocaremos os pés de madrugada. Não tocaremos os braços nos filmes. Não trocaremos de lado ao acordar. Não dividiremos o jornal em cadernos. Não olharemos as vitrines em busca de presentes. O celular permanecerá desligado. Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender. Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar. Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro. Abandonará de repente meu telefone. Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda. Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos. As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água. Adeus, meu amor. Terá filhos com outros homens. Terá insônia com outros homens. Desviará de assunto ao escutar meu nome. Adeus, meu amor.”

[Fabrício Carpinejar]

"Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer. Ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo."

[Caio Fernando Abreu]

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

"Não estou vivendo perigosamente.
Troquei o perigosamente, pelo intensamente, 
inconsequentemente, apaixonadamente.
Não há perigo.
Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo
e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver
sem um manual de instruções."

[Martha Medeiros]

sábado, 22 de setembro de 2012

"Por isso, continuo com a cabeça na lua. O pensamento nas nuvens. E, por via das dúvidas, me belisco sempre para aterrissar. Afinal, quem disse que não podemos trazer pra terra o que criamos em nosso céu?"

[Fernanda Mello]

quinta-feira, 20 de setembro de 2012






                Eles vivem uma relação 'encontrada', 
                           em todos os sentidos. 
Esse é um amor que acontece a cada dia. 
É uma via de mão dupla.
É uma troca que interage Ela transcende. Contagia.
É a delícia sentirem-se quando estão. 
É o abraço, o toque, o silêncio.
E também os sorrisos, que libertos se esparramam numa mesma frequência.
Eles fazem parte dessa leva de casais, que lentamente descobre um pouco do Outro. 
É o 'eterno início' que já dura temporadas.
É um lindo romance que todos os dias nasce junto com o pôr do sol.
Esses dois, que hoje decidiram ser UM apenas, quando se encontram... 
Ah!Por certo deixam escapulir a 'suave pretensão' de deixar um pouco para amanhã. Para depois. Para o mês que vem, não importa.
Eles não querem desvendar um ao outro de uma só vez.
Tem de ser aos poucos, como a própria vida acontece.
Esse é um amor que floresce a cada estação. É um arco-íris de sentimentos. Daqueles. Bem lindos.
Nesse encontro de Dois em Um, brota um cheiro bom de alegria.
De um amor quase maior do que o próprio amor.
De um amor que dispensa entendimentos.
Ele acontece. E fim. 

[Bibiana Benites]

Uma lição de Política

Do meio desse aluvião de escândalos que assola o país, levo-lhes um ângulo de análise da questão, com o qual concordo, no geral, embora no caso brasileiro o momento seja de uma necessária varredura na hipocrisia do processo eleitoral, que deveria ser simplificado assim:

No horário do TRE apareceria apenas o candidato em fundo neutro e falaria de suas idéias à nação. Chato? Pode ser. Mas é verdadeiro e os custos das campanhas cairiam de modo impressionante. É esse “marketing eleitoral televisual alucinado, que custa caríssimo sobretudo nas gravações para rádio e televisão e é a mania de não sujar a cidade com papéis fáceis de remover o que induz a enormes e milionários cartazes e out doors e agora empenas de edifícios, muito, mas muito além do preço possível a um candidato normal. Por isso os candidatos muito ricos, os que roubam, roubaram ou roubarão, levam enorme vantagem diante dos candidatos com idéias. Reparem que os políticos de idéias estão aos poucos (ou aos muitos) desaparecendo da política brasileira.

Dito isto vamos ao texto de Krishnamurti que é muito verdadeiro e se aproxima da essência do pensamento Cristão; É a melhora interna de cada ser humano o que modificará o mundo na direção do Bem Comum. Mas como isso é difícil! Diz Krishnamurti

“Nem o exemplo pessoal, nem a atividade política baseada em determinado sistema ou autoridade, salvarão o mundo. Isso já se experimentou mil vezes. Põe o homem a sua fé num sistema, num partido, num chefe, e todos falham, invariavelmente, como sempre aconteceu. E volta-se à exploração do homem, sob forma diferente. Se é o Estado que explora o homem ou se é o próprio homem que explora o semelhante, tudo vem dar no mesmo. O problema não pode ser resolvido pelo Estado, nem pelos exemplos. É necessária, pois, uma revolução criadora, no pensar, e isso é extremamente difícil. E por ser difícil apelamos para o outro, apelamos para o exemplo, para o chefe... Só haverá revolução no pensar, quando o homem estiver livre do condicionamento existente nas múltiplas camadas da consciência; o libertar-se desse condicionamento, é pensar revolucionariamente. “

Krishnamurti - Uma Nova Maneira de Viver – ICK

E por hoje é só. Já dei meu recado. Aliás, o do Krishnamurti.

[Artur da Távola in CooJornal n. 434, 23 de julho/2005]

‎"O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial! 

[Mario de Andrade]

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"Não que eu não acredite em maldade, só prefiro não passá-la adiante.""Eu engulo a seco tantas notícias, que ficam entaladas em minha garganta, mas prefiro fechar os olhos e lembrar um pouco de coisas que acrescentam. Durante todo tempo tanta maldade me cerca, mas prefiro que das minhas mãos só saiam auxílios. Sei que é impossível, por isso, não tenho a ilusão de apagar tudo que há de errado no mundo, mas tenho sim, a intenção de transmitir tudo o que há de bom em mim. Não é fácil, mas todos os dias tento renunciar meu lado impuro e embora essa atitude não traga um mundo melhor, aqui dentro já faz uma diferença danada."

[Fernanda Gaona]

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Quem sou eu?

"Sorrir com os olhos, falar pelos cotovelos, meter os pés pelas mãos. Em mim, a anatomia não faz o menor sentido. Sou do tipo que lê um toque, que observa com o coração e caminha com os pés da imaginação. Multiplico meus cinco sentidos por milhares e me proponho a descobrir todos os dias novas formas de sentir. Quero o cheiro da felicidade, o gosto da saudade, o olhar do novo, a voz da razão e o toque da ternura. Luto contra o óbvio, porque sei que dentro de mim há um infinito de possibilidades e embora sentimentos ruins também transitem por aqui, sei que devo conduzi-los com a força do pensamento até a porta de saída. Decidi não delegar função para cada coisa que eu quero. Nem definir o lugar adequado para tudo de bom que eu sinto. Nossos sentimentos são seres vivos e decidem sem nos consultar. A prova de que na vida, rótulos são dispensáveis e sentimentos inclassificáveis."

[Fernanda Gaona]
Jennifer Morrison como Emma in Once Upon a Time

domingo, 16 de setembro de 2012

"Julgamo-nos tão espertos, tão analíticos, tão maduros e, no final das contas, somos todos formados por medos, inseguranças e sonhos. Criticamos e condenamos aquilo que não somos, mas que nos incomoda e, se por fato tomamos a premissa, não podemos dizer que somos indiferentes. Já dizia Dona Maria: 'nenhum dos pregos misturados na caixinha toma martelada, apenas o que sai dela.' Virar alvo de críticas me ensinou, principalmente, que mesmo na pior das análises não há a indiferença. Isso, por si só, é razão para sorrir.'

[Felipe Neto]

sábado, 15 de setembro de 2012


"O que nos espera é maior que nós. Talvez seja suficiente. Talvez transborde. Talvez a gente nem se lembre da aspereza dessas horas difíceis e de como foi corrido atravessar esse instante cheio de demoras sempre tão longas. O que nos espera é bem maior que nós. É o que importa, sempre.
O nosso lugar dentro do tempo guarda o sorriso do mundo. Porque Nele cabe o melhor, cabe tudo. Cabe uma eternidade..."


[Priscila Rôde]

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


— Vai passar.
Não é um conselho alegre. Não me tranquiliza saber que terminaremos.
É uma advertência que me desespera. Não gostaria que passasse.
Eles não entendem que não sofro porque o amor acabou, sofro para não acabar o amor.
Sou contrário ao término, me oponho à nossa extinção.
Sou o único que resiste contra o fim de nossa história.
Eu não quero que passe. Mas sei que vai passar.
Sei que o amor vai morrer desidratado, faminto, por absoluta falta de cuidado.
Vai passar, infelizmente.
Tudo o que a gente construiu junto vai passar.
Tudo o que a gente idealizou, inventou e armou vai passar.
O lugar no peito que recebia seu rosto para dormir vai passar.
Nossos apelidos, nossos chamados, nossas piadas vão passar.
Por mais que acredite que seja impossível, irei namorar de novo, me apaixonar, casar e rir docemente sem culpa.
Vai passar.
Não superamos os medos, sucumbimos na segunda crise, desistimos de insistir.
Somos fracos, somos influenciáveis, somos tolos.
Foi muita incompetência de nossa parte.
Não seremos inesquecíveis.
Vai passar.

[Fabrício Carpinejar]

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"Em um primeiro momento a falsidade me incomoda. No instante seguinte, ela é substituída por uma sensação de pena. Deve ser triste “o mundo” de quem não tem a capacidade de confiar."

[Fernanda Gaona
Img: Emily VanCamp in Revenge

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Sorrisos sinceros me fazem pensar que sim, 
o mundo tem cura..."  

[Elenita Rodrigues]
Img: Sarah Jessica Parker

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Esqueci a tal exatidão. 
Dar nome aos bois, colocar os pingos nos "is", 
bater de frente. Tirei férias disso tudo. 
Se algum desaforo bater à minha porta, não atendo. 
Canto ciranda, enfeito minhas tranças, 
converso com a esperança.
Perdi minha mala 
carregada de ressentimentos na estrada do sossego.
Mudei a rota, 
arranquei as portas que aprisionavam meu sorriso.
Me perdi do tempo. Me encontrei em mim.

[Renata Fagundes]
Img: Monica Belucci in Vanity Fair

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Talvez, eu é que não tenha mudado. Talvez eu só esteja me apresentando. Me permitindo. Talvez eu só esteja amando de um jeito diferente. Me reconhecendo. Só estou fazendo do horizonte a minha casa, o meu tema.
É que, eu não sei se você sabe, mas, a gente precisa colocar o amor pra cuidar da gente.

[Priscila Rôde]

domingo, 9 de setembro de 2012

"... não ia fazer diferença, então deixo as verdades e mentiras assim mesmo, misturadas, você com suas coleções de máscaras e eu sempre tão exposta. Mas quer saber minha recompensa? Quem gosta de mim, quem tá do meu lado, tá por mim do jeito que eu sou, sem enganação. Me amam e não uma personagem. E, no fim das contas, ser enganada fica muito pequeno, porque os maior enganado é você mesmo e é uma pena. No meio de tantas máscaras, uma hora o rosto real se perde e tanta coisa se perde junto. Não sei se pode-se atribuir a mim a faixa de ingênua nessa história toda, como sempre é atribuído. Mas eu aceito e lamento e continuo superando... E pensando que ser sincera é a coisa mais natural do mundo. "

[Pully Deracco]
Img: Shelley Hennig in The Secret Circle

sábado, 8 de setembro de 2012

O que muitas pessoas fazem


Por que essa ingratidão memorativa? Por que essa desigualdade evocativa?
Estou por concluir que a memória abomina a felicidade.
Não cuidamos dos positivos das lembranças, apenas colecionamos os negativos.
Não nos esforçamos para guardar os bons momentos porque temos a ideia – equivocada – de que são obrigatórios.
Há o entendimento de que normalidade é acumular glória na vida enquanto a dor é um acidente de percurso. Há a convicção de que a alegria é uma condição natural enquanto a cara fechada é uma exceção (não seria o contrário?).
Predomina em nós a compreensão ingênua da felicidade como facilidade e da tristeza como dificuldade. Ser feliz seria simples e ser triste consistiria numa tremenda injustiça.
Uma noção do mundo em linha reta, de amor em abundância, provocando o desperdício constante e perigoso.
Não preservamos as delicadezas, assim como não economizamos água, já que ela verte com ligeireza pela torneira da residência.
Não poupamos as cenas comoventes, assim como não economizamos luz, já que ela depende de um clique para clarear as paredes.
Não embrulhamos a ternura, esnobamos. Parece que é um dever recebê-la, que nossa companhia precisa nos oferecer sempre o cotidiano mais precioso. Devoramos um bolinho de chuva pensando no próximo. Beijamos a boca de nossa mulher cobiçando o segundo, o terceiro e o quarto beijo.
O que é ruim é solene. O que é bom é descartável.
A morte se torna mais inesquecível do que o nascimento. O atrito surge mais consolidado do que o primeiro encontro. A ruptura se destaca diante dos acordes iniciais da amizade.
Temos amnésia da leveza, pois deduzimos que virá mais e mais no dia seguinte. Não criamos álbuns de nossas gargalhadas, mas recortamos as cenas rancorosas e amargas como se fossem definitivas e esclarecedoras.
Somos algozes da felicidade e, ao mesmo tempo, vítimas da infelicidade.


[Fabrício Carpinejar in Cadê minhas lembranças felizes]

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Independência

Nossa liberdade é parcial, todos sabem. Não me refiro ao país, e sim à nossa liberdade individual, minha e sua. Sempre que toco nesse assunto me vem à cabeça aquela frase que citei outras vezes: 'O máximo de liberdade que podemos almejar é escolher a prisão em que queremos viver.' É isso aí. E quais são essas prisões? Pode ser um casamento, ou, ao contrário, um compromisso com a solidão. Pode ser um emprego ou uma cidade que não conseguimos abandonar. Pode ser a maternidade. Pode ser a política. Pode ser o apego ao poder. Enfim, todas as nossas escolhas, incluindo as felizes, implicam algum confinamento, em alguma imobilidade, e não há nada de errado com isso, simplesmente assim é a vida, feita de opções que nos definem e nos enraizam.


Mas às vezes exageramos. Costumamos nos acorrentar também a algumas certezas e pensamentos como forma de dizer ao mundo quem somos. É como se redigíssemos uma constituição própria, para através dela apresentar à sociedade nossos alicerces: sou contra o voto obrigatório, sou a favor da descriminação das drogas, sou contra a pena de morte, sou a favor do controle de natalidade, sou contra a proibição do aborto, sou a favor das pesquisas com célula-tronco. Esse é apenas um exemplo de identidade que forjamos ao longo da vida. Você deve ter a sua, eu tenho a minha.

Dá uma segurança danada saber exatamente o que queremos e o que não queremos, no que cremos e no que desacreditamos. Mas onde é que está escrito, de fato, que temos que pensar sempre a mesma coisa, reagir sempre da mesma forma?

Ao trocar de opinião ou de hábitos, infringimos nossas próprias regras e passamos adiante uma imagem incômoda: a de que não somos seres confiáveis. As pessoas à nossa volta já haviam aprendido tudo sobre nós, sabiam lidar como nossos humores e nossos revezes, estava tudo dentro do programa e, de repente, ao mudarmos de idéia ou fazermos algo que nunca havíamos feito, subvertemos a ordem natural das coisas.

Quando visito algumas escolas, encontro estudantes um pouco assustados com as escolhas que farão e que lhe parecem definitivas. Tento aliviá-los: pensem, repensem, mudem quantas vezes vocês quiserem, é permitido voltar atrás. Digo isso porque eu mesma já reprimi muito meus movimentos, minhas alternâncias, numa época em que eu achava que uma pessoa séria tinha que morrer com suas escolhas. Ainda há quem considere leviana a pessoa que se questiona e se contradiz, mas já bastam as prisões necessárias - para que cultivar as desnecessárias?

Optei pelas medidas provisórias. Por isso, todos os anos eu faço uns picotes na minha constituição imaginária e jogo os pedacinhos de papel pela janela: é assim que comemoro o Dia da Independência. Da minha. 


[Martha Medeiros]

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"O amor chegou sorrindo. Sem gritar, sem calar, sem ponto de interrogação. O amor trouxe reticências. Algumas vírgulas. E muitos parágrafos. O amor trouxe novas folhas brancas. E pele, aconchego, abraço. O amor é um abraço apertado. Um beijo na testa. E uma mão firme que te ampara a todo instante. O amor é compreensão, é olho no olho, é promessa que cumpre, é voz que não gagueja, é quietude, segurança."  


[Clarissa Corrêa]

...Há formas subjetivas de amar, não refletidas em gestos ou sacrifícios
São formas egoísticas, talvez. Nem por isso menos válidas.
Aquele silêncio, por exemplo, em casa, com a mulher (ou com o marido), com a mãe ou com o pai. Aquele silêncio machuca quem nos espera alegres, faladores, contando as batalhas e peripécias da vida. E, no entanto, cheios de coisas para contar, nada sai. Ou sai pouco. “Sins”, “Nãos”, frases sintéticas, e um ar irritado, pressa para acabar o assunto. Parece desamor. E de fato é egoístico. Mas é preciso aceitar que há ou pode haver uma forma especial de amor naquele silêncio, naquela irritação. No exercer- exatamente ali - aquele tédio e aquele cansaço.
Ouso uma tradução para aquele silencio: “Minha mulher, ou meu marido, ou minha amante, ou minha amada, ou minha namorada, ou minha mãe ou meu pai ou avô, tio, avó, sogra etc.: eu a/o amo tanto, que a você eu posso entregar o meu cansaço, o meu silêncio, a minha necessidade de ficar um pouco calado, nada contar, não falar, não ser solicitado. Eu estou aqui a seu lado como quem pede socorro em silêncio, na suposição e esperança de que aqui ninguém exija que eu fale, conte ou me defenda, que eu seja brilhante, que eu seja bom etc.. Eu vim aqui homenagear você e o seu amor com o meu silêncio, o meu cansaço e o meu egoísmo, porque você saberá entendê-los.
Esta é a tradução que sugiro para tanto vazio que parece desamor. Somos capazes de fazê-la a cada situação real de silêncio do outro que nos soa a desamor ou rejeição?
Pelo menos cinqüenta por cento dos problemas e sentimentos de rejeição derivam da má tradução de certas atitudes que parecem indiferença ou desamor. É por dar ao outro a certeza de que nos sabemos amados e queridos que nos sentimos autorizados a ser chatos, cansados, entediados, silenciosos e egoístas com ele para que parceiro/a ou parente ou amigo tenha a certeza do que nós sentimos por ele e de que o amamos. Com quem nos ama sentimo-nos à vontade para exercer nossos impulsos menores, desprezíveis ou primários.
Injusto? Claro que é! Justamente quem nos ama, por suas carências e necessidades, talvez seja quem mais precise do nosso gesto, afeto, ou palavra. Ao reagirmos assim, estamos esquecendo das necessidades daquele que nos ama. E se ele é do mesmo estilo(mais sentimento do que gesto) vai entender. Mas se é do estilo inverso (gesto e atitudes que concretizem os sentimentos) acabará em cobrança, por que ele quer receber da mesma forma pela qual doa. E não recebe.
Amor e amizade são relações feitas e alimentadas de injustiças superadas. É impossível a permanente coincidência de necessidades complementares.
Uma das percepções mais difíceis é a da dimensão do amor do outro por nós, numa medida em que nem ele próprio percebe. É preciso aprender a se relacionar com essa dimensão oculta, para não ficarmos infelizes com as respostas que não vierem, com os silêncios que substituírem conversas, com as ausências e egoísmos que nos rejeitarem.
O ser humano (estranhamente) comporta-se de forma pior com quem gosta, porque quem gosta acaba compreendendo. É preciso desenvolver o senso de percepção do sentimento por nós, não manifestado pelo outro. É mister buscar ou captar esse sentimento no desvão onde vive escondido ou no silêncio no qual se disfarce.
Há pontos do sentimento por nós ou do nosso sentimento pelo outro que não precisam ficar claros para existir. Eles existem a despeito. Quem sente o silêncio, o tédio, o cansaço e o desabafo do ente querido precisa começar a descobrir o que se agita, esconde ou emociona dentro da atitude que o fere. Ou se sabe, tem grande dificuldade de transformar em gesto (o gesto que faz tanta falta a quem dele necessita) tudo o que sente.
É preciso enorme compaixão e incomensurável carinho por todos que nos doam o seu amor através da esperança de que sejamos suficientemente fortes para receber e aceitar o seu silêncio, o seu cansaço, o seu tédio e a sua depressão. O enigma do amor inibido de manifestar-se não é simulacro de desamor, tédio ou antipatia, quando é, apenas, atrofia da expressão amorosa, limitação inexplicável mas insidiosa de quem ama sem saber amar.

[Artur da Távola in O amor silencioso do livro: Do amor - o ensaio do enigma]

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas. 
Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor." 

[Chico Buarque]

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Esquecer

"A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da Terra, sob nossas faces. Amar é indubitavelmente mais magnânimo, mas não é tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. 
O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. 
A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer a excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos a nos encantar novamente dali a pouco. 
Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me matariam se terminassem. 
Às vezes, cruzo na rua com fantasmas que já foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dentes. 
Algumas pessoas são simplesmente apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade ou intenção, apenas esmaecem até desaparecer. 
É mesmo impossível manter na memória da pele todos que passaram por nós ou sermos mantidos por todos: gente demais, espaço de menos... 
O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotada com os erros cometidos e alegrias jamais revividas. 
Para ser feliz é necessário pouca coisa além de se livrar do excesso de cargas e esquecer das coisas certas. 
Nunca mais haverá amor como aquele? 
Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse. 
Todo mundo passa. 
E é bom que seja assim... 

 [Ailin Aleixo]

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"O que me interessa no amor, não é apenas o que ele me dá, mas principalmente, o que ele tira de mim: a carência, a ilusão de autossuficiência, a solidão maciça, a boemia para suprir vazios. Ele me tira essa disponibilidade eterna para qualquer um, para qualquer coisa, a qualquer hora. Ele apazigua o meu peito com uma lista breve de prós e contras e me dá escolhas. Eu me percebo transformada pelo que o amor tirou de mim por precisar de espaço amplo e bem cuidado para que ele se instale. 

O amor tira de mim a armadura, pois não consigo controlar a vulnerabilidade que vem com ele; tira também a intransigência. O amor me ensina a negociar os prazos, a superar etapas, a confiar nos fatos. O amor tira de mim a vontade de desistir com facilidade, de ir embora antes de sentir vontade, de abandonar sem saber por quê. E é por isso que o amor me assombra tanto quanto delicia. Porque não posso ignorar a delícia que sinto quando estou sozinha. E também não posso fingir que quero estar sozinha quando o meu ser transborda vontade de companhia. 

O amor me tira coisas que eu não gosto, coisas que eu talvez gostasse, mas me dá em dobro o que nunca tive: um namoramento por ele mesmo. O amor me tira aquilo que não serve mais e que me compunha antes. O amor tirou de mim tudo que era falta." 

[Marla de Queiroz]

sábado, 1 de setembro de 2012

O fim (do que não tinha fim)

Presos pela liberdade, prosseguem cada um na sua, conectados por um fio invisível que não conduz mais eletricidade. Um fio de saudade dissonante e a certeza de que, amor como aquele deles, não acontece no tocar de uma varinha de condão.
[...]
Separados, cada um em sua casa, simultaneamente os dois compartilham a impressão de não ver tão cedo uma placa informando para que lado se encontra um recomeço afetivo. Enquanto isso, o mundo não para de girar, sem gosto de morango mordido.
[...]
Ela ainda lembra dele quando alguém chupa seu dedão do pé. Ele se recorda dela toda vez que beberica um drinque com abacaxi e leite condensado. Os dois sabem que é perda de tempo tentar esquecer. Que sentir saudade não significa que melhoraram como pessoa, que agora magistralmente seus temperamentos são compatíveis e o correto seria viver aquilo tudo de novo, do êxtase à dor.

Significa apenas que foi bom, que foi inesquecível. E que qualquer amor que força as cordas vocais a produzirem um eu te amonão tem fim, mesmo acabando sempre do mesmo jeito, dividido por dois.

[Gabito Nunes in O fim (do que não tinha fim) - Vale a pena ler a crônica toda, muito linda.]

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