quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

[Ferreira Gullar in Barulhos]

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Meu melhor

Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei ardentemente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido o Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

[Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo]

Por toda Vida

"Deixa-me andar assim no teu caminho por toda a vida,
Amor, devagarinho..."


[Florbela Espanca]

"A primavera acontece em mim todas as vezes que o seu amor me acalma. Você é que enche de margaridas e pétalas o meu coração. Passeio de bicicleta e tudo me traz você. É assim o nosso amor, ele é maior quando invade o peito e sem saber direito se transforma em versos e segue as estações." 


Img: Solange Knowles e Alan Ferguson

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Eu batia pé — porque era impertinente, e porque queria algo “agora”. Um dos adultos, divertido, disse: — O agora nem existe! Aborrecida, pedi a meu pai que me explicasse aquilo, e ele tentou: — O tempo está sempre passando, é como a água de um rio, a cada instante tudo muda. Até a gente não é a mesma pessoa de um segundo atrás. E acrescentou para eu entender melhor: — Quando a gente começa a pensar a palavra “agora”, entre o primeiro “a” e o “a” final já transcorreu um tempinho, portanto nada é a mesma coisa, e a cada momento a gente não é a mesma pessoa. Levei dias procurando em vão empilhar as letras do “agora” para que fossem uma coisa só, num só instante. Mas não consegui enganar a esfinge que nos proporciona pequenos milagres e grandes tragédias, no duelo das ideias e das palavras ansiosas.

[Lya Luft in O Tempo é um Rio que Corre]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

um pouco mais

"Dói de todos os lados, os de fora, os de dentro, de baixo e de cima, nenhuma saída, e você meio cego, meio tonto, só sabe que tem que continuar, meio sem esperança, as ilusões despedaçadas, o coração taquicárdico, língua seca, e continuando. Continuando. Resistimos, aos trancos, já nem sei se foi escolha ou solavanco. Difícil arrancar uma certa lucidez disso tudo. Mas sinto que o coração se depura (é tão antigo falar em coração…) um pouco mais, em cada porrada”.

[Caio Fernando Abreu in Carta a Suzana Saldanha ]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Finalmente ser

"Cada um de nós precisa (mas ninguém nos explica isso) escrever o roteiro de sua existência dando-lhe sentido nos espaços brancos e nas entrelinhas das fatalidades e dos acasos (nos quais eu não acredito). Cúmplices de nós mesmos nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante, desejo de se ocultar atrás de fantasias e o ímpeto de arrancar as máscaras e finalmente ser”.

[Lya Luft in O Tempo é um Rio que Corre]

"Você é sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos.
Dou-lhe meu corpo, para que nós dois sejamos um só.
Dou-lhe meu espírito, até o fim de nossas vidas."

[Diana Gabaldon in A viajante do tempo]
img: Sam Heughan e Caitriona Balfe in Outlander]

Beijo diferente

Eu já havia beijado meu quinhão de homens [...] Jamie, no entanto, era algo diferente. Sua extrema delicadeza não era de forma alguma insegura; ao invés disso, era uma promessa de uma força conhecida e contida sob rédeas; um desafio e uma provocação mais notável ainda pela ausência de reivindicação. Sou seu, dizia. E se você me quiser, então...

Eu queria - e minha boca abriu-se sob a dele, aceitando calorosamente tanto a promessa quanto o desafio sem me consultar.

[Diana Gabaldon in A Viajante do Tempo]
Caitriona Balfe e Sam Heughan in Outlander

Aquele amor

"Ele ofegava de amor, e era como se houvesse um vazio no centro de seu ser, um vácuo de ternura desejosa que ansiava por ser preenchido, que só podia ser preenchido por ela, um vazio que a puxava para ele, para dentro dele, que a bebia como um vaso vazio bebe ansiosamente a água."

[Aldous Huxley in Contos Escolhidos]

[Angelique Boyer e Sebastian Rulli in Lo que la vida me robó (Oque a vida me roubou)]

Feita de pedra

"Os teus ouvidos eram buracos de concha,
retorcidos no desespero de não querer ouvir.
Me fizeram de pedra
quando eu queria ser feita de amor."

[Hilda Hist in Baladas]

Sempre amor

"O amor que nasce é assustadoramente amor. O amor que segue sozinho é assustadoramente só. Não há meio-termo porque o que o amor quer é coragem, o amor quer entrega, o amor sempre quer. Nem sempre é harmonia, nem sempre delicadeza. Mas sempre amor..."


[Cris Guerra]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016



"Nosso discurso já possuía uma memória nostálgica e éramos perfeitos em nossos silêncios.
Dois ou três jantares e não sabíamos explicar como tínhamos vivido tanto tempo separados. Nosso espaço era temporal. Fragmentos do tempo e pedaços da vida entre taças de vinho e rodelas de pães que devoraríamos com a fome dos que amam.
As coisas a nossa volta pareciam estar sempre nascendo e todas as histórias pareciam ser iguais: sem princípio e sem fim. Antes de questionarmos todas essas coisas, antes das escolhas, do acaso, da aprendizagem… já estávamos lá, dentro do sonho.
E era confortável estar dentro do sonho com os dias futuros enfileirados a nossa volta.
Ele demonstrava gostar e ria um riso miúdo. A felicidade é assim miúda, cravada na retina dos olhos, feito jóia.
Nunca mais queria sair daquele planeta.
Nunca mais queria caminhar por ruas de pedras duras.”

[Edgar Cézar Nolasco in Claricianas]

Intolerável




Eu nunca fui livre na minha vida inteira.
Por que dentro eu sempre me persegui.
Eu me tornei intolerável para mim mesma.

[Clarice Lispector in “Um Sopro de Vida”]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Reapaixone-se

Essa mania que temos de enjoar das coisas e das pessoas nos leva a grandes perdas. Parece que estamos sempre esperando mais, querendo outra coisa, e desse modo não conseguimos desfrutar o que já temos, o que já conquistamos. Nutrir sonhos e ser ambicioso é positivo, mas somente olhar para o que se quer muitas vezes nos cega frente a tudo o que já possuímos.

Em meio a essa frenética busca pelo que almejamos infelizmente podemos acabar nos distanciando de pessoas que estão junto de nós e que nos ajudaram a conquistar o que temos e somos hoje. Desgastamos, assim, um relacionamento que nos fortaleceu, de tanto que nossos olhos só parecem enxergar lá na frente, tornando-nos cegos em relação a quem já está ao nosso lado, lutando e sonhando conosco há um bom tempo.

De tanto ansiarmos pelo novo em nossas vidas, às vezes deixamos de valorizar o que já é parte do nosso dia a dia, descuidando-nos das várias riquezas que a vida nos concedeu. Por isso tantos relacionamentos deixam de ser amorosos para se tornarem um descompasso de idéias, desejos e objetivos. Por essa razão é que muitas vezes deixamos escapar por entre os dedos o amor maior de nossas vidas, em troca de infidelidades efêmeras e vazias de afetividade.

Por que procurar alguém lá fora quando já existe alguém que nos ama e dedica parte de sua vida à nossa? Por que achar que todo o amor que um dia uniu dois corações apaixonados morre de uma hora para outra, sem possibilidades de renovação? Por que parar de sorrir para a pessoa que dorme ao nosso lado, de roubar-lhe beijos furtivos, de tocar-lhe as mãos, de perguntar-lhe como se sente, de enviar-lhe mensagens apaixonadas e declarar o nosso amor e admiração?

Os sentimentos podem parecer adormecidos, dada a carga de trabalho excessiva e de preocupações que se avolumam em nossa vida, mas se já houve amor sincero, possivelmente ainda há uma fagulha dele que possa ser reacesa. Precisamos ser gratos à pessoa que esteve ao nosso lado por tempos, pois tudo o que obtivemos e construímos deve-se a ela também. Gratos e dispostos a reencontrar dentro de nós os sentimentos que pareciam perdidos, porque provavelmente o amor está entre eles, esperando por força e motivação de nossa parte.

Amores acabam, sim, mas não é fácil algo tão pungente e mágico, como o é um amor verdadeiro, arrefecer por completo. Não podemos deixar o tempo transformar em túmulo os nossos desejos, principalmente em relação a alguém que entrou na nossa história e a tornou melhor e mais completa. É preciso acordar disposto a alimentar o amor, todos os dias, a qualquer momento, onde estiver. É preciso lembrar que estamos juntos com alguém que pelo menos já foi o amor de nossas vidas, e que muito provavelmente sempre o será.

Cultivemos os sentimentos que nos uniram com nosso amado, dedicando-lhe parte significativa de nossa atenção, de nosso olhar, de nossa vida. Se acalmarmos os nossos passos e não permitirmos que a frieza do mundo lá fora adentre nossos sentidos,estaremos prontos para amar de novo e de novo quem sempre esteve ali bem juntinho, nos momentos de gozo e de sofrimento, lutando por nós e acreditando em nossos sonhos.

O amor possui uma força descomunal e uma capacidade inesgotável de se reinventar
Ele ressignifica nossa vida, tornando-a sempre mais gostosa de se viver, junto às pessoas que nos amam de verdade. Antes de desistirmos, portanto, é preciso que busquemos nos apaixonar e nos reapaixonar pelos olhos cúmplices que buscarão pelos nossos todos os dias, até o fim de nossas vidas.

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