domingo, 31 de agosto de 2014


Muitas pessoas dizem que chega certa hora da manhã e as costas começam a doer se a gente não levanta da cama. Não sei de onde tiram essas ideias, não me lembro de ter sentido isso uma vez que fosse. Aos domingos, eu costumo acordar a hora que dá na telha. Existe uma força como uma imã que me empurra na cama e não consigo levantar. Hoje, não foi diferente. Sem despertador e depois de usufruir do sono dos justos, levanto com a cara amarrotada e vou me arrastando até o banheiro. Lavo o rosto e me encaro no espelho: como estou envelhecendo. Quando a gente é criança, sempre tem um adulto que dá aqueles tapinhas na nossa cabeça e diz "aproveita essa fase que passa rápido", e você olha pra ele e dá aquele sorriso de Monalisa, sem mostrar os dentes, como quem quer dizer "prefiro tirar carta, ir a festas e acordar às 14h", como hoje, por exemplo. Pois é, a idealização é sempre mais emocionante do que a rotina. Tudo que ainda não foi vivenciado sempre parecerá mais interessante. E mais cedo ou mais tarde todo mundo descobre. Hoje, por exemplo, mesmo com toda liberdade, o tédio reina por aqui. Não tenho compromisso nenhum, então, me dou o direito de preservar meu modelito da noite: pijama. Já estou com as solas das meias sujas de tanto que arrastei elas pelo chão, mas me sinto bem assim. É uma semi-paz que transcende a necessidade de fazer exercícios, de tomar um pouco de sol e caminhar por aí. Na verdade, não é paz, mas eu finjo que é, pois estou mais confortável aqui. A hora de almoçar já passou e o horário de jantar ainda está longe, então, me esparramo no sofá com um pacote de bolacha (e antes que comecem com a discussão se é biscoito ou bolacha, digo que na minha terra é bolacha. Aceitem!). Faz tempo que não pego um livro pra ler, mas juro que tem uma justificativa. Ando dispersa. Tanto, que quando estou no meio da página ou já esqueci do que se trata ou dormi. Tem sido assim nos últimos meses, uma mistura de apatia com lembranças distantes de um tempo em que as coisas pareciam mais emocionantes. Sabe esse flashback que tive agora no espelho? Conforme as coisas vão acontecendo, os dias vão passando, eles vêm pra me lembrar que eu já fui diferente disso. Na verdade, eu sou diferente disso, mas especialmente aos domingos eu sinto essa ausência de perspectivas. Eu sei que elas estão aqui, perdidas em algum lugar, mas aos domingos a amnésia é inevitável. Mas calma, amanhã é segunda e possivelmente eu não terei nem tempo de pensar ou de não pensar na vida. Minhas obrigações vão me tirar até o prazer do café e a cada garfada no almoço sentirei o gosto de algum projeto que preciso entregar. Está vendo? Lá vem de novo a saudade de assistir a um filme no meio da tarde comendo brigadeiro de colher. Juro que o brigadeiro não tinha gosto nenhum de escola, só de brigadeiro mesmo. Envelhecer pode ser tão boring. Parece aqueles Natais em que o Papai Noel não vem e nem o presente escolhido compensa a dor. Acho que esse tédio vem justamente pra chacoalhar a gente e mostrar que nada é tão definitivo. Deve ser um jeito meio torto de dizer: procure distração na calma, a vida não é o parque de diversões que você idealizou. E é isso que tenho feito. Passo horas só comigo. Me enfrento. Quanto mais me conheço, menos me reconheço. Mudar é inevitável. Entender os ciclos é, de fato, amadurecer.

[Fernanda Gaona]

sábado, 30 de agosto de 2014

"Às vezes me pergunto se existe algo de errado comigo. Talvez eu gaste tempo demais na companhia de meus heróis românticos literários, e conseqüentemente meus ideais e expectativas são extremamente altos."

[E.L. James in Cinquenta tons de cinza]
Img: Gwyneth Paltrow in (um dos meus filmes preferidos) "Shakespeare Apaixonado"

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio. Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece. Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal. Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos. Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos. Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva. Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.
Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.
[...]
Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida. Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar. Se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.
Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.
Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida. Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.
Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.
Se.

[Martha Medeiros in Feliz por nada]

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Renunciar a algo que amamos muito e que desejamos com toda a força do coração é uma das decisões mais cruéis de se tomar que conheço. Porque a perda equivale a uma morte dupla: morrer para alguém e matar a pessoa na gente. É como se sobrasse por dentro apenas um casarão vazio com um jardim morto. E, de repente, tudo tão subitamente anoitecido sem previsões de dia novo. É um caminhar lento e arrastado numa espera sombria de que as horas passem e o tempo leve essa febre alta sem medicação possível. É preciso que haja tanta paciência e firmeza por dentro pra não entrar em desespero, que a sensação que se tem é de estar meio fora do ar, com tanto esforço. E até chorar fica difícil, teme-se que nunca mais o choro cesse.

Há muitas perdas quando se termina algo que não se queria ter terminado: muda-se a autoimagem, alegrias ficam suspensas, sonhos desaparecem por um tempo e nenhuma cor na paisagem. O cotidiano fica obscurecido por aquela lacuna aberta no meio do que era a parte mais interessante dos dias.

Com o tempo, você analisa que abrir mão de algo muito importante, só se faz quando se tem um motivo maior que esse algo: seja um propósito, uma crença, um valor íntimo, uma obstinação qualquer que te oriente para essa escolha que já se sabia tão dolorosa. É um sacrifico voluntário por algo mais pleno, mais grandioso em Beleza. E, nestas análises, você descobre outras perdas que são positivas: perde-se também a ansiedade, a insegurança e a ilusão. E você aprende a recomeçar agradecendo por vitórias tão pequenininhas...

Como quando é noite e antes de dormir você se enche de gratidão:

“Deus, obrigada, porque é noite e eu tenho o sono... Que venha um sonho novo, então.”


[Marla de Queiroz]

Ele se aproximou, envolvendo minha cintura com seu braço e me puxando para si. Nossos narizes se tocaram. Ele começou a acariciar o meu rosto com os dedos de uma forma tão delicada que parecia temer que eu quebrasse.
- É, não acho que seja possível evitar - ele sussurrou.
Com a mão aproximando levemente meu rosto do seu, Maxon inclinou a cabeça e me deu o mais tímido dos beijos.
Algo em sua hesitação fez com que eu me sentisse linda. Sem precisar de palavras, pude compreender como ele estava emocionada mas também assustado com o momento. E por trás de tudo isso via sua admiração por mim.
Então era assim que uma dama se sentia.

[Kiera Cass in A seleção]
Foto: Leighton Meester e Ed Westwick in Gossip Girl]

O que não mata, fortalece.

Ela vai seguir em frente. Ela vai deixar o Oregon. Ela vai para faculdade. Ela vai fazer novos amigos. Ela vai se apaixonar. Ela vai se tornar fotografa, do tipo que nunca vai ter que subir num helicóptero. E eu aposto que ela será uma pessoa mais forte por causa do que ela perdeu hoje.
Eu tenho o pressentimento que depois que você sobrevive de algo assim, você se torna um pouco invencível.

[Gayle Forman in Se eu ficar]
Img:Audrey Tautou in O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"E as estradas acompanham os meus passos. Não há absolutamente nada garantido: se chuva, sol, tristeza ou riso. Talvez um pouco mais do mesmo, talvez um monte do que desconheço. Às vezes um frio na barriga, a respiração curta, o coração apressado. E eu tentando colocar na nesga de medo, um pensamento azul de tranquilidade e delicadeza. 
Meus passos desenham estradas. Não há absolutamente nada previsto: se serra, mar, amor ou descompromisso. Sei que já conheço a tua boca, ainda guardo a força do teu abraço, ecoa em mim as gargalhadas das madrugadas e nossos corpos abraçados e nus, descansando da exaustão de tudo isso. 
E a minha vida segue compondo paisagens. E não há absolutamente nada comedido: todas as sensações em estado bruto, transbordam pelos olhos em estado líquido.

(Então a gente se encontra ali, daqui a pouco.
Com hora marcada, surpresa agendada, imprevistos no bolso)."

[Marla de Queiroz]

"Chega de chorar pelos cantos porque você acha que passou da idade de começar de novo. Chega de tanto drama porque você ainda não encontrou o amor da sua vida. Ou mais realisticamente dizendo: um cara bacana com quem você possa viver seus dias. Amor não tem idade. Beleza também não. Pra cada um, a vida dá um tempo. Não é porque a sociedade nos manda um roteiro pronto (com prazo estabelecido), que iremos seguir tudo a risca.

[Fernanda Mello]

"Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento."

[Martha Medeiros in “Doidas e Santas]

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ela sentira uma colisão com ele e sabia que quisera isso a vida toda: trombar com alguém em tal velocidade que se fundisse nele.
O momento viera não no pico da paixão de uma noite, como ela esperava, mas na manhã, quando os olhos de ambos se abriram ao mesmo tempo e buscaram foco um no outro.

[Ali Shaw in “A Garota dos pés de vidro]

"Quando o silêncio é a única solução para o entendimento a distância se faz necessária. Dói menos do que o barulho dos desentendimentos e a sabedoria do tempo amansa a angústia." 

[Denise Portes]

quinta-feira, 21 de agosto de 2014


"Temos de nos apaixonar pelo êxito, não pelo fracasso. E tudo depende de aprender a ter esperança. Quando a esperança cessa com certeza aquilo que tememos acontecerá."

[Julie Zeh in A menina sem qualidades]


E que o mais importante seja o amor: ele mesmo, em estado bruto até a sofisticação da evolução de ambos. Aquele que está além da dimensão homem-mulher, mas que abrange primeiramente o amor próprio, o amor à vida, o amor ao que nos fortalece, reforça nossa esperança, que nos amadurece e deixa gratos. O amor por mais um dia, por mais uma vitória, pela aceitação que supera o que antes era só uma maneira de admitir, mas que não nos conduzia à plenitude do que realmente a existência reservou para nós. Amor que não depende, agrega. Que não subtrai, soma. Amor que não “embarulha”, mas soa feito melodia doce. Amor que respeita a individualidade antes e apesar de qualquer coisa. Amor que nos faz enxergar o Outro como ele é sem as distorções e anestesias da carência ou quaisquer coisas que alterem nossa percepção de mundo. Sentimento que descobrimos sem medo, à flor da pele, cientes de que temos todas as ferramentas para superar conflitos, frustrações e que podemos evoluir também no que é desconfortável. Amor construído para ser saudável: sem pressa, ansiedade ou impulso. Tranquilamente o nosso coração abraça o Outro com toda a sua bagagem de potencialidades desenvolvidas e limitações. E o parceiro acha morada ali, naquele abrigo de paz. Não o único abrigo de paz, apenas mais um deles. Porque nossa vida é composta por muitas outras pessoas, paisagens, sensações que não podem ser excludentes quando decidimos nos unir. Amor de querer bem. Amor de se cuidar. Amor que sabe a hora também de deixar ir...

Tem que ser simples para ser bom.
Que assim seja. Que seja SIM.

[Marla de Queiroz]

Serenidade


Tem dia em que eu acordo e, de verdade, pouco importam as minhas dificuldades, sejam elas até já desgastadas pelo tempo, sejam elas viçosas, recentemente inauguradas, tudo me parece perfeito. Tudo é como pode ser agora, eu estou onde consigo estar, o tempo das coisas é o tempo das coisas, e isso vale também para cada pessoa que compartilha a sala de aula comigo.

Tem dia em que eu acordo e faço contato com uma gentileza tão linda que desconhece essa história de acertos e erros, sejam meus ou alheios, viver é trabalhoso e todo mundo se atrapalha, de um jeito ou de outros. Toda gente só precisa de consciência, cura e amor. Toda gente só quer ser feliz. Não há motivo para pressa e também não há estagnação, eu permito que a vida possa simplesmente fluir, sem tentar, em vão, amarrar ou alterar o jeito de dizer das suas ondas.

Este sentimento pode durar poucos quarteirões do dia, um monte deles, até mesmo só alguns centímetros de passo, enquanto dura é absoluto. 


[Ana Jácomo]


"Foram as minhas esperas 
que me trouxeram as melhores respostas." 

[Bibiana Benites]

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