sábado, 15 de maio de 2010

Vida com amor

Eu duvido de toda a liberdade que não seja responsabilidade. Nunca me senti tão livre quando tinha que cuidar dos meus irmãos pequenos enquanto a mãe estava no trabalho. Preparava o almoço, atendia a visita gritando na janela (nunca pelo vidro da porta), tentava acalmá-los no momento que ficavam ansiosos pela volta materna.

Hoje liberdade parece que é não se importar com o outro. É fácil esquecer amores, amizades, empregos. Não percebo resistência, luta por uma paixão, superação das dificuldades, persistência por um ideal, leitura de lábios, dedicação exagerada e até irritante. Não se faz mais um samba por uma dor-de-cotovelo ou em nome de qualquer parte do corpo. Não se toma um porre para chorar em público por uma mulher. As relações se esgotam em um torpedo. No primeiro empecilho, troca-se de par, troca-se de casa, troca-se de rosto, troca-se de roupa, troca-se de ideologia. Se ela não está a fim de mim, digo azar e não procuro a sorte. Onde estão os obsessivos? Onde estão os fiéis? Onde estão os que acreditam tanto na dúvida que a transformam em confiança?
Involuntariamente, a psicanálise nos libertou a errar sem temor, a agredir sem dó, a fazer o que der na telha sem temer as conseqüências. Com uma terapia uma vez por semana, pode-se quebrar as regras nos demais dias e empilhar o constrangimento no lixo. Tudo é válido, nada mais é proibido, nada mais escandaliza ou merece censura. Mergulhados na ausência mórbida de opinião, já que não se pode reprovar coisa alguma, não se escolhe, não se renuncia. Condenados à felicidade, como se ela fosse um direito constitucional.
É obrigatório gozar, é obrigatório estar acompanhado, é obrigatório ser feliz, é obrigatório emagrecer. Quanta pressão e coerção por todos os lados. Não consigo manter a espontaneidade sendo cobrado. Imagina uma mulher confessar numa roda de amigos que não teve um orgasmo? "Mas como?", vão revidar. "Em que mundo vivia?", o coro grego logo recriminará. O que devia ser uma conquista tornou-se uma culpa. E o que acontecerá? Haverá mais gente fingindo do que procurando a autenticidade. A pressa elimina o ritmo afetivo de cada um. Não suporto a felicidade como uma imposição, muito menos o gozo ou a euforia. A satisfação pessoal não depende de mim, mas da capacidade de sair de mim. Dependo de quem amo e não me diminuo em dizer isso. Não existe arrebatamento sem idealização, mesmo que o sofrimento venha com o pacote. Cair ao menos me cura da vertigem. Sexo com amor, política com amor, ética com amor, amizade com amor é bem melhor. E natural. Ainda que demore, durará mais do que uma mentira.
[Fabrício Carpinejar in Sexo com amor]
 

3 sentimentos:

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