sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Teremos sempre gente nos julgando.
Os vizinhos, os parentes, os colegas de trabalho, da academia e do inglês, quem nos tirou no amigo-secreto, quem nos viu no cinema.
Chamados para opinar, vão demonstrar uma intimidade surpreendente.
Não é paranoia, todos só estão esperando que eu faça algo realmente grande para confessar que me conheciam.
E pode ser agradável e pode ser nocivo, não importa, as maçãs podres partilham a cesta com as frutas sadias, o joio e o trigo são irmãos gêmeos, a maldade e a bondade são mais parecidas entre si do que o amor e a amizade.
Diante de uma atitude boa, dirão que já sabiam que eu era sinônimo de retidão.
Diante de um fato ruim, também dirão que já sabiam que eu não prestava.
O sonho da maioria é desfraldar a faixa: “Eu já sabia, Galvão”.
O fofoqueiro deseja ser profeta, pretende dar a notícia em primeira mão seja lá qual for e como for.
Os conhecidos guardam meus antecedentes negativos e positivos numa pastinha na área de trabalho do Windows, prontos para a impressão.
[...]
Somos influenciáveis. Há a ânsia em definir o próximo para nos poupar da encrenca de assumir as próprias ambiguidades.
Em caso de me converter num herói salvando criança de atropelamento, a opinião pública tecerá elogios de minha conduta familiar. Lembrará do amor incondicional aos filhos.
Na hipótese de atropelar alguém, o público me enxergará como uma máquina mortífera desde a infância. Desde quando andava de triciclo e amassava formigas. Puxarão os pontos da carteira de habilitação, e o zelador do meu prédio, Carlos, descreverá minhas dificuldades para tirar o carro de ré.
Teremos sempre gente nos condenando. Viver é uma execução sumária.
Certo que, um dia, termino no paredão.
Pelo menos, vou pintando os muros de meu fim. Verdes de esperança.
Mas não faltará amigo supondo que isso é ironia.

[Fabrício Carpinejar in Eu já sabia]

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