sábado, 4 de janeiro de 2014

O amor é um sentimento destinado à felicidade, tanto quanto ao sofrimento e também à doação. Se você ama (melhor seria dizer: se você é capaz de amar), não espere só grandes recompensas, respostas otimistas. Amar é apesar.
Amor é o sentimento que se instala a partir do primeiro tédio. Amor não é o que nos atrai em alguém. Isso é atração, paixão, ou qualquer coisa parecida.
Amor é o que nos mantém unidos.
Quando menos sentimentos exaltados, mais amor, união e durabilidade.
O amor é um sentimento embaraçado nas raízes fundas do sentimento. 
Quem ama nem tem consciência dessas raízes. Teme-as. Prefere não vê-las.
Porque vê-las será revelar-se. E revelar-se assusta.
O amor é também o sentimento misturado com rejeição, raiva, irritação, convivência, desinteresse, tédio, o vazio a dois, o sumiço da paixão e as emoções mais intensas.
Ele é tão grande, tão pleno, tão poderoso e incrível que resiste a tudo isso, inclusive as impossibilidades, estranho veneno que o alimenta. Mas isso é amor dodói. Amor saudável é apenas bom.
Você não deixa de amar apenas porque já não gosta igual ou não sente a mesma atração. Talvez só agora você comece a ficar madura o suficiente para poder começar a amar.
Pessoas que se atraem à perdição talvez ainda nem começaram a se amar. 
Enquanto apenas se atraírem, não alcançarão o amor. Alcançar o amor tem tanto de renúncia quanto de alegria, felicidade ou glória. Sim, a felicidade pessoal é compatível com o amor. Infelicidade, jamais. Mas amor é sério demais para almejar apenas felicidade. O amor visa a eternidade. A felicidade é apenas um caminho para ela.
Assim como é preciso alguma crueldade para viver. Assim como há sempre alguma agressão embrulhada em qualquer vitória, assim, também, a alegria precisa de alguma inconseqüência. Sem esta, restará apenas a lucidez, que é sempre repleta de ''trágicos deveres''. Libertando-nos da plena consciência, a inconseqüência nos permite alguma alegria. Já felicidade é outro assunto. Está no campo do amor.
Felicidade ganha de alegria assim como amor ganha de paixão. Mesmo quando venha nesta embrulhado.

 [Artur da Távola]

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